Café com Leite e Cacos de Vidro [Conto]

A Vida podia ser como uma manhã de outono… Nem fria, nem quente, nem escura, nem clara, nem triste, nem feliz, simplesmente o meio termo. Creio que o meio do círculo cria o ciclo, aproveita-se melhor aquele que conhece de tudo um pouco, sem limitações.

A vida podia ser como as músicas de Frank Sinatra… Doces, alegres, tristes, aconchegantes, solitárias, fazem você pensar, fazem você lembrar, fazem você imaginar, dançar nas memórias. Todos querem ter um amor para todas as estações, alguém que te ame de segunda ao sábado e te dê o domingo de folga. Alguém que saiba de todas as suas cuecas e quantas colheres de açúcar pôr no seu café. Alguém que segure seu pincel quando este cair no meio de um processo criativo. Alguém que saiba a flor adequada para te presentear no momento em que você mais quer, ou precisa, ou os dois, ou nenhum dos dois.

A vida podia ser como um estojo de aquarelas. As cores separadas, os momentos prontos para serem pintados, observados, apreciados, com apenas o adicional que os faria ganhar vida. A Água. Você. O pincel? Depende. Seu amante pode ser sua inspiração, seu pôr-do-sol, seu sorriso, sua lágrima, seu sangue pingando, ou apenas você. Pintar seus passos, suas experiências. Pintar de olhos fechados e ver no que dá. Perder o controle dentro de seus limites. Quebrar limites tomando o controle. Misturas de cores para alcançar uma cor que você nunca enxergou. Talvez nunca consiga o tom correto. Talvez não tenha o preparo necessário para enxergar a cor. Talvez. Tal vez.

A vida podia ser como um par de mãos. Mãos ansiosas por outras mãos. Mãos solitárias e frias. Mãos quentes e confiantes. Mãos indecisas e querendo se conhecer melhor, se apalpando para manterem-se quentes. Todo um quer seu par. Mãos que se encaixem imperfeitamente em outras mãos. Talvez não do jeito que você imaginava que seria, do jeito que você sempre quis, mas sim do jeito que você precisa. Mãos que afagam. Mãos que batem. Mãos que puxam para o encontro. Mãos que tranquilizam. Mãos que abandonam. Mãos que dizem olá. Mãos que dizem adeus. Mãos que digitam sentimentos arquivados de um adolescente em dívida com seu indivíduo pessoal.

Por fim, a vida podia ser A Vida. Como queremos, como imaginamos. O que você imagina quando te perguntam o que você quer fazer no futuro? Como seriam os planos ideais? Dançar com seu amor lúdico uma música romântica de verão, escrever um livro sobre memórias nunca vividas, comprar todas as flores do jardim para alguém que não te vê com os mesmos olhos? A vida é assim. Por isso que ela não podia ser. Ela pode ser. Ela é o pincel, a manhã de outono, a música de Frank Sinatra, o par de mãos vazias, ela é tudo e nada ao mesmo tempo. Ela é o que você quer que ela seja e o que você detestaria que ela fosse. A vida é um paradoxo paradoxal o qual não podemos escapar nem conduzir por completo. Meio termo. Café com leite e cacos de vidro.

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